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A Mata Atlântica e o Corredor Central da Mata Atlântica
A Mata Atlântica é um dos biomas de maior biodiversidade do Planeta. Mais de 93% de sua mata original já foram destruídos (a maior parte nos últimos 50 anos) e a devastação do que sobrou continua em ritmo acelerado. Essa trágica realidade torna o bioma um dos mais ameaçados do Planeta.
Cobrindo mais de 8,5 milhões de hectares, que se estendem do sul da Bahia ao Espírito Santo, o Corredor Central da Mata Atlântica (CCMA) apresenta extrema riqueza biológica e abriga índices altíssimos de espécies endêmicas (espécies que só ocorrem numa determinada região). Do Espírito Santo para o Norte, até o Rio Pardo, mais de 97% da cobertura vegetal já foram destruídos. Por essas razões, a área é considerada de altíssima prioridade para a conservação do bioma Mata Atlântica pelo Governo Brasileiro, pela ONU e organizações ambientalistas nacionais e internacionais.
A Região Cacaueira do Sul da Bahia e o Município de Camacan
Dentro do CCMA, os remanescentes de Mata Atlântica da região cacaueira do sul da Bahia são considerados de alta prioridade para conservação, por apresentar uma das mais altas taxas de biodiversidade e endemismo do planeta. Estudos realizados pela Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC) e pelo Jardim Botânico de Nova York registraram um recorde mundial de biodiversidade: foram identificadas 458 espécies diferentes de árvores em um hectare de floresta (uma área do tamanho de um campo de futebol).
Essa região compreende o Subterritório Camacan, que fica dentro do Território Litoral Sul da Bahia e abrange os municípios de Jussari, Arataca, Camacan, Pau Brasil, Mascote e Santa Luzia. A região possui 94.482 habitantes (IBGE, 2007), dos quais 63.820 residem na zona urbana e 30.662 na zona rural.
Historicamente, a base econômica dos municípios dessa região era a agricultura, dominada pela produção e comercialização de cacau plantado no sistema tradicional conhecido como cabruca, em que os cacaueiros são plantados dentro da mata, sem que seja necessário eliminar todas as árvores.
No auge da produção, a região chegou a ser uma das maiores produtoras de cacau do Mundo, porém, a partir do final da década de 80, a doença conhecida como “vassoura-de-bruxa” e a queda do preço do cacau no mercado internacional provocaram uma severa crise na economia local. Todo esse contexto gerou uma drástica recessão, o que estimulou a migração da população rural para as periferias dos centros urbanos, onde a maioria hoje sobrevive em situação de extrema pobreza.
Serra Bonita
A Serra Bonita, localizada nos municípios de Camacan e Pau-Brasil, é um dos últimos fragmentos remanescentes de Mata Atlântica de Altitude do Corredor Central da Mata Atlântica, também conhecida como “Mata de Neblina” ou “Floresta Submontana Úmida”. Abrange uma área de 7.500 hectares, localizada no coração da região cacaueira, a 130 km de Ilhéus e 526 km da capital da Bahia, Salvador - veja o mapa da Serra Bonita.
A Serra Bonita é privilegiada por um habitat único, com fortes gradientes altitudinais (entre 200 e 950 metros acima do nível do mar). A grande variação de umidade e temperatura da região expressa-se em sua vegetação, que compreende desde Florestas Ombrófilas Densas com elementos de Florestas Estacionais Semideciduais, nas partes mais baixas, até Florestas Úmidas Submontanas (matas de neblina) no alto da serra.
Cerca de 50% da área é coberta por matas primárias, de grande importância biológica. O restante é formado por um mosaico de vegetação em diversos estágios de sucessão, incluindo matas secundárias com mais de 30 anos de idade, cabrucas e alguns fragmentos de pastos. Além de sua extraordinária biodiversidade e beleza cênica, as florestas da serra também protegem inúmeras nascentes que abastecem de água limpa as populações dos municípios de Camacan e Pau Brasil.
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Vista da Serra Bonita |
Por do Sol - Robin Moore |
Complexo RPPNs Serra Bonita
Localizado no centro da Serra Bonita, o Complexo RPPNs Serra Bonita é uma iniciativa inovadora de conservação em terras privadas, cujo objetivo é proteger os remanescentes de Mata Atlântica desta serra. O Complexo protege uma área total de aproximadamente 1.800 hectares, dos quais 1.200 foram convertidos em RPPNs: Serra Bonita, Serra Bonita I, Serra Bonita II e Serra Bonita III (clique aqui para ver o Mapa do Complexo RPPNs Serra Bonita), constituindo a segunda maior área de RPPNs do Corredor Central da Mata Atlântica (Cadernos da Biosfera da Mata Atlântica, Mesquita, C.A., 2004) e sendo uma referência para a proteção dos remanescentes de Mata Atlântica de Altitude na região.
Essas RPPNs pertencem a vários proprietários, porém sua gestão é efetuada pelo Instituto Uiraçu sob regime de comodato. Por intermédio da Diretoria de Defesa de Ecossistemas, o Instituto Uiraçu promove ações de consolidação e ampliação do Complexo com o objetivo de conservar o máximo possível da área total de Serra Bonita (7.500 hectares).
RPPN significa Reserva Particular do Patrimônio Natural. RPPNs são áreas em propriedades particulares, destinadas voluntariamente pelos proprietários à conservação perene e regulamentas por lei. Em 2000, a Lei 9.985 que aprovou o Sistema de Unidades de Conservação (SNUC) deu às RPPNs o status de Unidade de Conservação (UC). As RPPNs podem ser legalizadas em níveis federal, estadual ou municipal. De acordo com o Decreto n° 1.922, de 5 de junho de 1996, em uma RPPN poderão ser realizadas somente pesquisa científica, educação ambiental e ecoturismo.
Importância das RPPNs para a Conservação do Corredor Central da Mata Atlântica
Menos de 2% do Corredor Central da Mata Atlântica é protegido de forma integral. Essas áreas protegidas, além de pequenas (quase a metade tem menos de 2.500 hectares), são também altamente isoladas e distribuídas de forma inadequada, tanto geográfica como ecologicamente. Tais fatores, combinados com severas limitações no manejo e graves problemas fundiários, fazem com que o sistema público de Unidades de Conservação não tenha, sozinho, condições suficientes de manter populações viáveis de espécies endêmicas ameaçadas, nem de conservar a biodiversidade a longo prazo.
Por esta razão, as RPPNs podem ser consideradas como as melhores aliadas das áreas públicas protegidas. Elas ampliam as áreas sob proteção, preenchem lacunas, conservam habitats únicos e formam corredores ecológicos que melhoram significativamente a conectividade das florestas, servindo também de abrigo e ponto de passagem para animais silvestres. Esses corredores permitem a circulação da fauna, impedindo que grupos de organismos fiquem isolados entre si, o que geraria problemas de consangüinidade e aumentaria os riscos de extinção.
Importância Biológica do Complexo RPPNs Serra Bonita
O Complexo RPPNs Serra Bonita contribui fortemente para a proteção da Mata Atlântica, conservando uma área de Mata Atlântica de Altitude, localizada em uma região altamente estratégica para a conservação da biodiversidade local.
Flora
Embora a vegetação existente na Serra Bonita seja praticamente desconhecida do ponto de vista florístico, estudos preliminares têm demonstrado que a região abriga uma diversidade extraordinária, com inúmeras espécies novas para a ciência, possuindo também extrema importância para a conservação de espécies endêmicas da Mata Atlântica.
Estudos preliminares realizados pela Universidade Estadual de Santa Cruz e Jardim Botânico de Nova York identificaram mais de 680 espécies de plantas vasculares, incluindo 12 espécies novas para a ciência, entre as quais uma bromélia, uma das maiores e mais bonitas espécies de plantas da Serra Bonita.
Clique aqui para visualizar a lista de espécies da flora existentes na Serra Bonita.
Fauna
A Serra Bonita é também extremamente rica em diversidade animal. É uma área de reconhecida importância para os pássaros, segundo avaliação do programa Important Bird Areas (IBA) da organização Birdlife/SAVE Brasil. Num levantamento preliminar, realizado por esse programa, foram identificadas 59 espécies endêmicas de aves e nove espécies ameaçadas de extinção, além de um gênero e espécie descobertos recentemente o “acrobata” (Acrobatornis fonsecai). Estima-se que, no total, existam mais de 400 espécies de pássaros na serra.
Das seis espécies de primatas que existiam originalmente na Serra Bonita, quatro ainda podem ser observadas:
• Macaco-Prego-do-Peito-Amarelo (Cebus xanthosternos);
• Guigó (Callicebus melanochir);
• Mico-Estrela (Callithrix kuhlii);
• Mico-Leão-de-Cara-Dourada (Leontopithecus chrysomelas).
O Muriqui-do-Norte (Brachyteles hypoxanthus) e o Bugio (Alouatta guariba) estão extintos na serra. Com a ampliação da área de reserva e o fortalecimento do serviço de vigilância e monitoramento, espera-se reintroduzir essas espécies.
Mais de 5.000 espécies de lepidópteros já foram relacionadas até o momento na Serra Bonita. Estima-se que, após um levantamento intensivo, esse número possa alcançar de 12 a 15 mil espécies. Para que se tenha idéia do significado desses números, observe que todo o território dos Estados Unidos e Canadá, juntos, apresentam cerca de 11 mil espécies.
Uma lista atualizada de fauna da Serra Bonita pode ser solicitada através da Diretoria de Pesquisa do Instituto Uiraçu.
Para ver mais imagens da fauna da Serra Bonita clique aqui












